Tuesday, 3 July 2012

Vermelho


De vez em quando, em raras ocasiões, vejo uma luz ao fundo do túnel no que toca aos seres humanos. Estas ocasiões dão-se, por norma, quando sou surpreendido por momentos de verdadeira beleza e sensibilidade nos sítios mais improváveis.
Dito assim parece frase saída de um guião de filme romântico de Domingo à tarde, mas juro que ontem assisti a um daqueles momentos que aparecem retratados naquelas correntes de imagens “feel good” das redes sociais, ou até em qualquer campanha publicitária das que exploram os sentimentos lamechas de união e solidariedade (*cof*Coca-Cola*cof*cof*).

Estava ao balcão do McDonalds à espera da comida, porque como sempre tinha dado para esquisito e pedido um dos hambúrgueres novos, que parece que são inventados só para chatear os coitados da cozinha, que àquela hora a última coisa que querem é ter de ir buscar o pão especial ou o ingrediente que não está à mão.
Quando falo em “aquela hora” falo obviamente no período nocturno. Já passava da meia-noite na verdade, o que salientou ainda mais o facto de ao meu lado de repente ter surgido uma jovem senhora com um vazo quadrado, cheio de flores vermelhas. Um vermelho vivo, as flores estavam ainda visivelmente frescas.
Não eram rosas, ou pelo menos acho que não. Na verdade não lhes prestei assim tanta atenção, a fome e o cansaço não deixavam muito espaço para contemplações. Peguei no saco e fui-me sentar, e desliguei-me do que se passava à minha volta até já andar de volta das últimas batatas fritas.

E foi enquanto esgravatava os restos de ketchup com as últimas batatas que o vermelho das flores voltou ao meu campo de visão.
A senhora estava sentada de frente para mim, no outro lado da sala, com o vaso ao seu lado em cima da mesa, e tal não foi o meu espanto quando a vejo ser abordada por um senhor de meia-idade, de uniforme do McDonalds, a perguntar-lhe pelas flores.
Não tinha reparado antes no empregado, mas a verdade é que ele tinha andado o tempo todo à minha volta, a limpar as mesas. Era o cleaner daquele turno, um homem negro de corpo esguio e meio corcunda, força do hábito a limpar mesas provavelmente. Tinha os dentes visivelmente mal tratados, e o boné da cadeia de fast food que usava na cabeça já tinha visto melhores dias. Estava perante um claro exemplo do estereótipo dos empregados do McDonalds, uma pessoa que provavelmente trabalhava ali não por vontade mas por necessidade, a ser explorada com um salário mínimo e com muito poucas opções além dos turnos que lhe eram designados.
Mas o que interessa mesmo para este relato foi a reacção da tal jovem senhora. Ela era visivelmente britânica (caucasiana, loira, traços faciais típicos), e mesmo tendo em conta que estávamos em Brixton, zona mais “periférica”, digamos assim, de Londres, que prima por um visível número maior de habitantes negros, fruto de comunidades de imigrantes que se fixaram ali há muitos anos atrás, já estávamos naquela hora em que pouca gente tem paciência para conversas, e normalmente fica de pé atrás quando abordada por estranhos. Mas não foi este o caso, de todo.

Entraram os dois em “amena cavaqueira”, com o senhor a pedir para tirar uma flor do vaso e colocar no canto da orelha. A dona do vaso não só o deixou tirar a flor como arrancou uma segunda e lha colocou no bolso da camisa, com o vermelho a destacar-se junto ao símbolo amarelo do Tio Donalds. O empregado, de gesto humilde e despreocupado, retribuiu a segunda flor com um aperto de mão e um discreto abraço.
Juro que só não me caiu a lágrima no canto do olho porque provavelmente a Coca-Cola Diet ainda não me tinha hidratado por completo, ou por outro lado me tinha tornado demasiado habituado a ver destas coisas nos anúncios da TV. E se julgam que a coisa ficou por aí enganam-se, pois a conversa entre os dois continuou até depois de eu me levantar e sair do restaurante.

São mesmo raras as vezes que me deparo com algo tão sublime e ao mesmo tempo tão espontâneo, duas pessoas sensíveis ao contacto humano genuíno, despretensioso, despreocupado, especialmente num local onde tudo é despersonalizado e só se entra para satisfazer necessidades de pagar a renda e/ou de alimentação, ora de forma robótica ou animalesca, respectivamente.
Que a próxima vez surja depressa.

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