Thursday, 14 March 2013

26


Ontem fiz 26 quilómetros de bicicleta. Vinte e seis quilómetros a pedalar ao máximo (ainda que com várias paragens para ver o caminho no GPS), metade do percurso com uns bons 6 quilos na mochila, a levar com neve, chuviscos e frio, numa bicicleta em mau estado, com travões desafinados, corrente acabada de desenferrujar/olear mas ainda bastante emperrada.

Tinha que estar em dois sítios diferentes a horas, consegui chegar ao segundo com apenas 7 minutos de atraso. O segundo era o Hammersmith Apollo, onde trabalho, e onde tive que estar mais umas 5 horas em pé a servir bebidas no bar e a dar uma ajuda no auditório.
Quando a adrenalina baixou senti algum cansaço, mas ainda assim quando terminei o turno fui a pedalar para casa. No fim já foi a custar, mas o sentimento de realização pessoal, mesmo que numa coisa tão simples, bate qualquer dor de pernas que tenha hoje.

Numa das primeiras vezes que peguei na bicicleta, quando ela ainda estava novinha em folha, foi para fazer um percurso de 12 km quase em linha recta, e mal me aguentei. Na vinda para trás um terço do percurso foi feito a pé porque as pernas me tremiam em claro colapso muscular. Hoje em dia penso nessa experiência e no que consegui ontem e rio-me.

Testarmos os nossos limites e tentar quebrá-los é uma das coisas que me motiva em quase tudo o que faço. Acho que foi algo que aprendi (como muitas outras coisas) através do hardcore.
Quando és puto, entrar num pit cheio de gajos mais velhos e maiores que tu, arriscando-te a cair ou até levar uma boa solha no meio da cara, é assustador. Saltar de cabeça de cima de um palco pode correr muito mal.
Mas sem nunca tentar, sem nunca arriscar a dor para saber se vale ou não a pena, tornas-te apenas mais um espectador, no pit e na vida.

Saturday, 2 March 2013

(HOME)



"Quando eu quis regressar para o meu lar 
Eu sei que quis me encontrar 
Nas velhas histórias do meu lar 
E na ausência da inocência 
Contida entres estas paredes 
Tudo o que eu conhecia mudou 
O tempo foi tão voraz 

Eu quero aprender mais 
Quero fazer mais
Ainda que me arrependa outra vez 
Quero chorar ao menos mais uma vez 
Eu quero amar 
Mais e mais. 

Outra vez 
Repetir 
Mais uma vez 
Repetir 
Repetir."

Obrigado Bráulio, Alex, Corentin.

Tuesday, 1 January 2013

158


Há uns tempos atrás, fiz um post sobre os filmes que tinha visto até à data no ano que agora terminou.
Se na altura constatei que o número era meio absurdo, constato neste post que realmente passei demasiado tempo a ver filmes em 2012.

De um total de 158 filmes, o dobro do que tinha mencionado antes, muito pouca coisa me impressionou verdadeiramente. Mas eu sempre gostei de listas de fim de ano, e de ler reviews e opiniões de outros sobre coisas que me interessam, por isso deixo aqui então a revisão final aos melhores filmes que vi em 2012, reconhecendo, mais uma vez, que ainda me faltam ver muitos clássicos, e que provavelmente deixei escapar alguns bons filmes lançados no ano passado.
  1. 12 Angry Men (1957)
  2. The Dark Knight Rises (2012) - vi 2x em cinema
  3. Looper (2012) - vi 2x, primeira em cinema
  4. A Clockwork Orange (1971)
  5. The Hobbit: An Unexpected Journey (2012) - 3D e ecrã IMAX
  6. Life of Pi (2012) - 3D
  7. Shame (2011)
  8. Rust and Bone (2012)
  9. Skyfall (2012) - vi 2x em cinema
  10. Prometheus (2012) - vi 2x, primeira em cinema 3D
Acho engraçado perceber que muitos filmes mudaram de posição na lista, e outros desapareceram completamente, simplesmente porque à medida que reflecti sobre "os melhores", e sobre o que realmente é melhor que o quê, com base única e exclusivamente na importância que tiveram para mim enquanto consumidor e apreciador de cinema, percebi que aquilo que eu sabia há meses atrás não é mais o que sei hoje.
Ao ver o dobro dos filmes que tinha mencionado antes, as minhas opiniões, mesmo sobre os que já tinha visto, mudaram. Não posso mais colocar o The Help, ou o Intouchables no Top 10, quando penso na experiência que foi ver o Dark Knight Rises pela primeira vez, ou o Hobbit, ou como o quão genial é o Life of Pi enquanto adaptação de um livro. 

Algumas notas:

  • Decidi não incluir neste Top 10 filmes que já tinha visto na íntegra em anos anteriores, porque não seria justo para os filmes que realmente interessam deste ano, ainda que eles estejam presentes na minha lista do IMDB e contribuam para o número final de 158.
  • Quase por teimosia, optei por manter o Prometheus, mesmo em detrimento de outros grandes clássicos que têm o mesmo rating na minha lista no IMDB, apenas porque a experiência de ter visto esse filme, sozinho numa sala quase vazia, foi bastante imersiva e acredito que até hoje é do melhor 3D que já vi num filme (e papei bastante 3D neste ano findado).
  • Deixei alguns filmes incompletos, por não ter tido tempo de os terminar de ver, estes são: Cloud Atlas, Hara-Kiri - Death of a Samurai e I Am.
Aqui fica a lista completa para quem queira dar um olhar mais curioso.

Wednesday, 26 December 2012

320

É o meu novo highscore pessoal de Scrabble. E também o primeiro, visto que ontem foi a primeira vez que joguei.
Acho que libertei um monstro que ainda me vai dar muitas dores de cabeça (das boas claro).

Obrigado Nets pela prenda e pela jogatana. Melhor maneira de encerrar o Natal deste ano.


Sunday, 21 October 2012

Janela Indiscreta


No outro dia fui ver os Caspian, numa noite que acabou por se revelar super agradável não só pela qualidade da música mas pela qualidade da companhia. Encontrar amigos de forma totalmente inesperada é sempre fixe, aliás, ficar na conversa à porta de um concerto muitas vezes é tão bom como o próprio concerto. A música ao vivo é uma experiência que se deve encarar de forma social, de partilha. Ainda que a música dos Caspian a mim me toque de uma forma muito pessoal; dei por mim a fechar os olhos em alguns momentos só a absorver a música.

Esta ideia levou-me depois a reflectir sobre um episódio que aconteceu durante o concerto: dois amigos, não sei se grandes fãs da banda ou apenas curiosos que pediram para entrar perto do fim e mandar um olhinho, colocaram-se à nossa frente e decidiram começar uma sessão de fotos e vídeos da banda em actuação. Nada demais, não fosse o facto da "sessão" ter levado uns bons 5 minutos ou mais, e de um deles, após ter finalizado a gravação, ter tocado no botão de play e ficado a mostrar ao amigo o vídeo com enorme regozijo, qual sessão de cinema. Enquanto a banda tocava à frente deles...
Já tinha assistido a fenómeno semelhante num concerto de City & Colour há uns bons tempos atrás, em que uma miúda ficou o concerto todo ao meu lado a gravar o áudio do concerto no iphone e a fotografar com uma máquina sem lente especializada, ou seja todas as fotos estavam uma merda. Lembro-me perfeitamente que nesse concerto o Dallas chegou a pedir que parassem as fotos apenas durante uma música, e que as pessoas se concentrassem no som e cantassem com ele. Escusado será dizer que foi um dos melhores momentos do concerto.

Hoje em dia parece que toda a gente vê o mundo através de um ecrã. Se estás a ter um momento agradável, tens que fotografar, tens que partilhar, tens que mostrar aos teus "amigos". É quase inato, e deixa-me assustado. Será que esta forma distorcida pela tecnologia de apreciarmos a nossa própria realidade não nos torna demasiado auto-conscientes? Onde é que fica o efeito do "deixarmos-nos levar pelo momento" se no nosso cérebro o momento está a ser absorvido de uma forma completamente calculada, informatizada, globalizada? Será que nos comportamos da mesma forma se soubermos que vamos ter registos visuais para mais tarde recordar, ou que a qualquer momento alguém pode fazer isso por nós sem o nosso conhecimento? 

Não me interpretem mal, eu tiro sempre uma foto ou outra de um concerto a que vou, ou de um qualquer outro momento especial, e mais, eu filmo, edito e publico online na Juicy TV imagens de concertos, mas este último é um acto de quase "serviço público", de querer deixar algo que possa ser mostrado a futuras gerações sobre a cultura que tanto amo. Ainda assim quando filmo vejo os concertos através do ecrã da câmara, e acreditem, é diferente. Parece que as coisas se desenrolam a uma velocidade diferente, numa dimensão paralela em que me sinto mais dentro do que se passa no ecrã do que a minha própria presença física.

Só espero que como seres humanos consigamos abrandar esta corrida para a despersonalização da vida real, que consigamos dar mais valor aos momentos e às pessoas, às coisas que fazemos em conjunto, do que ao registo dessas mesmas coisas.
"Para mais tarde recordar", mas nunca se esqueçam de que as memórias não morrem se as mantivermos vivas no nosso cérebro e no nosso coração.

Monday, 13 August 2012

Olímpico

Nunca fui muito à bola com eventos feitos para as massas. Festivais de Verão, Europeus, Pavilhões Atlânticos...consigo contar pelos dedos de uma mão as vezes que me vi no meio desse tipo de situações. Talvez seja da minha fraca paciência para gente amontoada e os consecutivos comportamentos estúpidos que se verificam quando o anonimato é garantido pelos números.

Mas ontem, única e exclusivamente por questões de trabalho, fiz parte da Cerimónia de Encerramento dos Jogos Olímpicos de Londres 2012 (diz que escrito com letras maiúsculas causa mais impacto). E quando eu digo fiz parte entenda-se participei. Mas já lá vamos.

A minha equipa ia dar apoio à entrega da tocha olímpica ao Brasil. Uns bons 300 dançarinos, entre voluntários e profissionais, uns fatos e apetrechos esquisitos, muito samba, 5 minutos e estava feito. Andei a semana toda sem fazer quase nada, a comer sempre as mesmas sandes, ver ensaios em armazéns e descampados, e a pensar que ia ser uma banhada todo o tamanho. Até que num certo dia de ensaio geral, já com palco simulado e o resto da malta da cerimónia, me aparecem as Spice Girls em cima de taxis pretos. "Wow. Espera lá, que se calhar ainda vou ter umas surpresas". 
E tive. Ontem, em pleno estádio olímpico, passadas umas boas 12 horas de "standing by", decidi apanhar o elevador mais 2 colegas, explorar o estádio e ver se conseguíamos ver o espectáculo antes da nossa parte, que era muito perto do fim. Acabámos por conseguir passar segurança, ser expulsos de 2 zonas de imprensa porque não tínhamos a acreditação correspondente, mas lá arranjámos o nosso cantinho, com vista privilegiada:






Foi impossível não ficar de boca aberta várias vezes, à medida que ganhava noção da dimensão e da qualidade do espectáculo como um todo (o ensaio geral que vi eram só 2/3). Não eram tanto os nomes famosos que me surpreendiam, mas sim a grandiosidade, a capacidade de coordenar, coreografar e fazer centenas de pessoas darem uma vida mecânica mas exuberante a um espectáculo cheio de criatividade.

Mas eu estava ali era para trabalhar. 
A minha equipa, dividida entre 2 túneis de acesso, era a dos Props - Kites, que eram sem dúvida a coisa mais complicada de toda a coreografia. Chegou a nossa hora, as nossas dançarinas apareceram, os tais "kites" foram colocados em posição e elas receberam a chamada de palco. Eu, ingénuo nestas andanças dos eventos de grande escala, tinha andado a noite toda a dizer "Mas porque raio ainda não houve fogo de artifício? Tem que haver fogo de artifício!"
Parecia que me tinham ouvido:



A euforia foi quase instintiva. Tive que engolir as minhas próprias palavras críticas e admitir que foram 5 minutos muito bem conseguidos, ainda que ajudados pelo barulho das luzes e pirotecnia.
As nossas miúdas portaram-se melhor que em qualquer ensaio, fiquei orgulhoso porque sabia que os kites eram muito pouco prácticos e exigiam um esforço redobrado no momento da coreografia.
Sucesso requer celebração. E eis que alguém da equipa se vira para o nosso supervisor, o Ascanio, um italiano super fixe que na altura já era mais um amigo que chefe, e diz "Olha lá, e se nós formos todos com elas agora no fim, para cima do palco?"

E fomos. Corremos para o palco, cinco gajos em fato macaco preto no meio de 80 miúdas todas de branco, pelo meio encontrámos o resto do elenco do Brasil e passados 2 minutos estava rodeado de milhares de dançarinos das outras partes do espectáculo, com atletas olímpicos ao meu lado, a saltar e a gritar freneticamente ao som dos The Who que actuavam mesmo à nossa frente, no meio de um estádio gigantesco populado por umas boas 80 mil pessoas.




Abraços, fotos, vídeos, samba...não deu para não gritar e não sentir que estava a ter um daqueles momentos épicos que ficam para contar aos netos. 
Finalmente percebi a génese dos eventos de massas, e fiquei fascinado pela capacidade organizativa de tudo, pela forma como é um esforço verdadeiramente olímpico conseguir pensar, criar e por em prática uma festa gigantesca como a de ontem. Meios humanos e técnicos numa escala completamente esmagadora.
Vão continuar a contar-se pelos dedos de uma mão as vezes que vou participar num evento deste tipo como público, mas do lado de quem trabalha, fica sem dúvida aqui registado o meu enorme respeito.

Friday, 3 August 2012

Taça de Cereais


Chego a casa de mansinho, com meia luz e gesto felino.

Tiro a roupa cansada e deixo-a deslizar para o chão, a hora já não pede atenção a detalhes, o corpo já não pede muito mais além de uma taça de cereais e o que resta da noite de sono.

Vindo da cama ouve-se um arfar gentil. Ela não nota a luz ligada aos seus pés, o que me leva a crer que se deitou "a horas decentes", desta vez.
Desisto dos cereais. Em outros tempos teria optado por eles e por tudo o resto que coubesse no tabuleiro, quem sabe até uns restos aquecidos no micro-ondas, mas hoje em dia falta-me a paciência e valorizo mais o tempo que consigo dormir enquanto a manhã não inunda o quarto de luz.

Debruço-me sobre a cama, ela continua a ignorar a minha presença, envolta num sono que eu sei profundo. Beijo-lhe gentilmente a face e recebo em troca um surpreendente meio-sorriso, esboçado de perfil, salientando a covinha no canto da boca.
A ternura desta recepção tão ingénua e o conforto dos lençóis pre-aquecidos são tudo o que preciso para declarar o dia como bem sucedido. É uma declaração silenciosa, de mim para comigo próprio, sou afinal o único juiz possível de tal afirmação, passei dois terços do dia sozinho, mas foi a noite e o regresso a casa que ditaram a sentença.
Barriga vazia, coração cheio.